O Milagre de Natal por Sílvio Gama nos contos de 3º grau (Epis VI-Fim)
Contos de 3º Grau...
Publicado a 26 de Dezembro de 2015

O Milagre de Natal por Sílvio Gama nos contos de 3º grau - História 1/Epis VI-FIM

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Título: “O Milagre de Natal” - História 1

     

Episódio I - Carlos Marinho                 Episódio II - Gonçalo F. Gouveia     Episódio III - José Carlos Santos         
Episódio IV - José Veiga de Faria         Episódio V - Paulo Correia              Episódio VI - Sílvio Gama 

Episódio I por Carlos Marinho - Dia 1

Na última aula de português de final do primeiro período a professora Jacinta Morgado pediu aos seus alunos uma composição de 140 palavras com o tema "Natal". Recolheu os textos dos alunos, meteu-os na sua pasta de cabedal de tonalidade escura e disse: - Meninos, boas férias!     
Um dia à noite, sentou-se no sofá, mesmo em frente à árvore com uma enormes bolas vermelhas e uma bela estrela. Depois das exaustivas reuniões de avaliação, a professora foi à pasta e deparou-se com as folhas escritas dos seus alunos de 10º ano. Começou a ler, até que chegou ao texto do António Peixoto que dizia: Nunca tive um Natal com presentes, nem árvore de natal... nunca tive um brinquedo. Só tenho um par de calças, uma camisa, uns sapatos e um casaco... o meu desejo é ter comida para a minha família e um presente pelo Natal. Gostava de ter um carro telecomandado. Fascina-me desde criança. É o meu sonho...

Episódio II por Gonçalo F. Gouveia - Dia 6

A professora Jacinta sentiu-se subitamente dividida. A sua robusta costela didático-pedagógica, herdada de três gerações de Morgados a penar no ofício da ardósia, insurgia-se contra a excessiva franqueza daquelas frases destituídas da erudição gramatical que ela tanto se esforçara por lhes ensinar. Não há maneira! Mas porque não sonham eles com uma gramática telecomandada?, exclamou involuntariamente, dirigindo-se aparentemente ao Ministro da Agricultura que, não sem alguma ironia, nesse momento se esforçava por explicar o excesso de produção de nabos a um Parlamento adormecido, no écran do televisor.  O Sr. Ministro não lhe respondeu, o que é típico. Mas, como se a Professora Jacinta Morgado tivesse um pequeno pedagogo e um minúsculo assistente social sentados em cada um dos seus ombros de amplitude generosa, em substituição dos usuais anjinho e diabinho, ao mesmo tempo assaltava-a a intuição de que era suposto fazer qualquer coisa mais que corrigir a ortografia. E, de súbito, teve uma epifania!

  

      

Episódio III por José Carlos Santos - Dia 11

 

Jacinta pegou no seu tablet, abriu o Facebook e entrou no grupo dos professores do Ensino Secundário da escola onde leccionava. Hesitou ainda um bocado (mais a pensar na forma do que no conteúdo da mensagem) e depois escreveu:   
Colegas professores do 10º B, venho partilhar convosco um texto de Natal de um dos nossos alunos, o António Peixoto. Diz o seguinte: […] Depois de o ler e de tentar não pensar no que me parece ser uma total ausência daquilo que lhe ensino (ou tento ensinar), escrevo-vos a propor que façamos algo perante esta situação, que nos deve afligir a todos. Se bem que haja outros casos de grande pobreza na nossa escola e nesta turma em particular, a situação do António parece-me notoriamente grave. Proponho que nos quotizemos para lhe poder oferecer um carro telecomandado. Quem está comigo?   
Depois de enviar esta mensagem, a Jacinta sorriu e sentiu-se bem consigo própria.

Episódio IV por José Veiga de Faria - Dia 16

  

No dia seguinte a Professora Jacinta acordou cedo, preparou o seu café bem quente com torradas, abriu as janelas deixando entrar um dia de sol radioso e olhou para o pequeno jardim, tão bem tratado, nas traseiras de sua casa. Bebeu um gole de café. Um dia radioso!? Sim, mas não para todos. O caso do António é um entre muitos.
A sua formação pedagógica levou-a de imediato a definir bem o problema: detetar os alunos com reais necessidades, económicas ou psicológicas, e dar-lhes uma solução. E também, generalizando, a pensar nos casos em todo o mundo. Ora ela tinha ouvido recentemente uma analogia entre o funcionamento do nosso cérebro e o das redes digitais. Dado um problema, recordações de dados relevantes são ativadas em partes diferentes do cérebro e combinadas logicamente, usando circuitos não totalmente conhecidos, para obter resultados que sugerem novas recordações no sentido da obtenção da resposta pretendida. Algo parecido acontece nas redes mundiais. Então porque não colocar o problema à internet mundial? Resolveu criar um site onde colocava o problema de forma clara.  Contactou amigos, o ministério da educação (daqui não esperava grande coisa a não ser a divulgação pelas escolas do país), universidades, centros de investigação relevantes, embaixadas, tudo que lhe ocorreu.

Episódio V por Paulo Correia - Dia 21

  

Os dias seguintes foram cheios de emoções e sentimentos contraditórios… chegaram mensagens de apoio e conselhos úteis, mas também outras carregadas de pessimismo mal disfarçado apelando a um realismo conveniente ou lembrando dificuldades incomensuráveis. A página de Internet teve uma explosão de mediatismo nas redes sociais para desaparecer no fundo dos murais das redes sociais com a mesma velocidade… 
No grupo do facebook dos colegas do 10º B a situação era em tudo similar… todos se tinham manifestado de alguma forma: através de um silêncio absoluto do professor de Inglês, com a mensagem de “não tenho tempo” da professora de Filosofia, ou o tradicional “se todos alinharem, eu também alinho” da professora de Matemática… nenhum entusiasmo! 
A euforia desvaneceu-se… e foi dando lugar a uma resignação entendida como normal... até que a Jacinta lá entregou as composições aos alunos do 10ºB. No final da aula, o António esperou que todos saíssem e aproximou-se da professora com o papel da composição na mão, tentando disfarçar uma gaguez muito pouco habitual…
Professora… recebi pelo correio um presente: um carro telecomandado espetacular… não sei quem o enviou… não costumo falar deste sonho com muitas pessoas… escrevi-o aqui… não é coincidência, pois não?

Episódio VI  Sílvio Gama - Dia 26

A professora, sem qualquer justificação para o sucedido, simplesmente sorriu-lhe, dizendo: “Que bom ver esses teus olhos assim tão arregalados de alegria. Se tiveste esse presente, foi sem dúvida muito bem merecido. Agora, vai e senta-te que a aula vai começar”.
Os anos passaram...
O António lidera uma equipa que começara, recentemente, a testar um protótipo de carro voador que obedece ao pensamento do condutor.
A professora reformara-se. Nunca soube quem enviara o carro ao António. 
A vontade de querer ajudar opera milagres. 

FIM