Identidade por Jorge Buescu
Clube de Matemática SPM - Eixos de Opinião janeiro de 2017
Publicado a 04 de Janeiro de 2017

 



1 é a identidade multiplicativa. 

E também o dia de o Presidente da SPM partilhar o seu ponto de vista.                                                          

Jorge Buescu - Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática    


Identidade por Jorge Buescu - Intervenção no Parlamento (13/12/2016)

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Título: Intervenção no Parlamento (13/12/2016)


Na sequência da agitação no sector da Educação descrita aqui, aqui, aqui e aqui, a SPM foi recebida a 13 de Dezembro de 2016, em conjunto com as Sociedades Portuguesas de Química, de Física e de Filosofia, pela Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República. Segue-se o texto da intervenção do Presidente da SPM. 



Intervenção no Parlamento (13/12/2016)


Sr. Presidente, Srs. deputados:


Em primeiro lugar quero saudar a casa da Democracia, que desta forma se dignifica, disponibilizando-se a ouvir os seus representados. 


Gostaria de deixar claro por que é essencial, nos processos de redesenho curricular para o Ensino, ouvir as sociedades científicas, e uma reestruturação que não ouça os cientistas das áreas fica necessariamente muito deficiente. Focar-me-ei na Matemática, que é ensinada de modo formal do 1.º ao 12.º anos.


Isso acontece essencialmente por duas ordens de razões. 


Em primeiro lugar, as perspectivas dos professores e das sociedades científicas são complementares. Os professores que ensinam uma determinada matéria têm uma perspectiva local dos problemas. Mas isso não chega: a Matemática enquanto Ciência tem uma estrutura de interdependência funcional implacável.


Um problema de estudo de funções (12.º ano) exige que o aluno domine os métodos de factorização de polinómios (10.º ano), que por sua vez exige um domínio perfeito dos casos notáveis do binómio (8.º ano), que por sua vez repousa no domínio de manipulação algébrica básica (2.º ciclo) e na proficiência do cálculo com fracções e do algoritmo da divisão (1.º ciclo). 


Qualquer professor tem experiência concreta desta integração vertical. Infelizmente muitos alunos deixam de seguir a matéria em estádios precoces, tornando-se depois incompreensível o que se passa em sala de aula nos anos seguintes – como se fosse uma língua estranha.


Faltando esta visão de conjunto e da integração vertical da Matemática, é fácil cometer erros graves para a consistência científica do curriculum se, em cada uma das etapas, forem omitidos conteúdos com critérios meramente locais.


Uma segunda razão, para a qual estou certo esta Comissão será particularmente sensível, é a contínua e cada vez mais acelerada evolução da Matemática enquanto Ciência. Esta actualização exige uma actualização renovada dos curricula e das matérias a ensinar por pressão das necessidades em transformação da Ciência e Tecnologia, das quais os professores do Básico e Secundário dificilmente podem ter consciência. 


Para dar um exemplo, de anos recentes, a revolução em curso do Big Data levou já a que, nas melhores Universidades do Mundo – MIT, Cornell, NYU… –  fossem criados novos Departamentos de Matemática Aplicada de raiz. A estrutura e conteúdos da Matemática ensinada na Universidade está em mudança. E essas transformações estão a chegar, por pressão da comunidade científica, ao ensino Secundário, contribuindo muito saudavelmente para a modernização e actualização dos curricula escolares e para a sua adequação às novas exigências.


Assim, é com enorme preocupação que a SPM constata o seu afastamento do processo de reestruturação curricular em curso. O contributo que a SPM pode dar ao diálogo sobre esta reforma curricular em curso não é contraditório, nem sequer redundante. Pelo contrário.


O grupo de trabalho iniciou-se em Outubro. Após dois meses de contactos sem resposta, a SPM foi recebida pelo SEE João Costa no dia 6 de Dezembro. Esse contacto foi bastante frustrante: como sinal de abertura, o Sr. SEE forneceu à SPM o seu email do Ministério, afirmando que poderíamos enviar-lhe os comentários que entendêssemos. Contudo, ao mesmo tempo confirmava o afastamento específico da SPM – ao contrário das outras Sociedades aqui presentes – dos trabalhos do Grupo da redesenho curricular, entregando as decisões sobre a concepção do “curriculum essencial” exclusivamente à Associação de Professores de Matemática. 


Esta situação parece-nos de uma discriminação incompreensível. Mais importante do que isso é, contudo, o facto de poder provocar graves deficiências estruturais na articulação dos futuros curricula “emagrecidos” –  com prejuízo para todos, mas acima de tudo para os nossos jovens, para com quem temos o dever de qualificar com excelência. 


A escola pública tem de permitir a qualquer pessoa ter acesso aos instrumentos para melhor escolher o seu percurso académico e profissional. A eliminação de 25% dos conteúdos curriculares ao longo de toda a escolaridade, de forma desarticulada, numa disciplina tão fundamental como a Matemática, não nos parece um passo no sentido de melhorar as qualificações dos nossos jovens – muito pelo contrário.