Joaquim Azevedo - Entrevistado clube spm de junho de 2017...
Clube Matemática da SPM - Clube Entrevista
Publicado a 01 de Junho de 2017

Joaquim Azevedo - Entrevistado clube spm de junho de 2017...

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Clube de Matemática SPM

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O Professor Joaquim Azevedo é o convidado do clube spm do mês de junho de 2017. A infância, a matemática, a Universidade Católica, Roberto Carneiro, o ensino profissional, as famílias e, claro o projeto Arco Maior. Uma entrevista com escola com a seguinte geometria...






Como foi a sua infância?
Razoável. Vivi-a na minha aldeia, entre a minha família e a escola primária, que era o centro da nossa vida. Foi um tempo muito alegre, o da escola e dos amigos.


As aulas de matemática eram...
Corriam bem. Não tinha grandes dificuldades, só mais tarde, no que corresponde ao atual terceiro ciclo, é que não me dei tão bem com a Matemática.


É professor catedrático da Universidade Católica. O que ensina concretamente?
Várias áreas: Políticas Públicas, Administração da Educação, Inovação e Desenvolvimento da Educação.




Roberto Carneiro foi um bom ministro da educação?
Foi o maior e o melhor do pós-25 de abril e do século XX. As grandes mudanças estruturais da educação foram realizadas no seu mandato e ainda hoje perduram. Foi o homem certo, na hora certa, pois a Lei de Bases do Sistema Educativo acabara de ser aprovada (1986) e a Comissão de Reforma do Sistema Educativo tinha acabado de entregar imensas propostas de trabalho (1987 e 1988).  Nunca houve tanta esperança na educação em Portugal.


Foi secretário de estado dos ensinos básicos e secundário na década de 90 com Roberto Carneiro. O que guarda dessa experiência?
Comecei com Roberto Carneiro, ao criarmos as escolas profissionais, e estive com ele como Diretor-Geral do GETAP (1988-1992). Quando fui para o Governo, o ministro Roberto Carneiro acabara de sair (em 1991) e era Ministro Couto dos Santos. Trabalhar com Roberto Carneiro era uma graça enorme, um grande amante da liberdade e de uma educação descentralizada, sustentada em professores bem preparados e numa boa cooperação com as famílias.


Juntamente com Roberto Carneiro criaram o ensino profissional. Donde surgiu a ideia?
Debatemos isso pela primeira vez em 1987, com base numa ideia inicial do Ministro Roberto Carneiro. Depois, seguiu-se um tempo de amadurecimento e debate com muitas entidades da nossa sociedade. Acabamos por definir o modelo num decreto-lei, em 1989. Demorou bastante porque o projeto era muito inovador e baseado em iniciativas da sociedade civil e não na iniciativa direta do Estado. Criaram-se perto de 150 escolas por contrato-programa. Foi um tempo de muita iniciativa e liberdade e de um belíssimo envolvimento do país na educação. Ainda hoje perdura este modelo do ensino profissional. De perto de 3% de alunos do nível secundário a frequentar este ensino, em 1989, passamos para 45%, em 2017, em cerca de trinta anos. 




Como está a atual educação em Portugal?
Está muito melhor do que alguma vez esteve, em termos de acesso da população à escola. Mas não está melhor no entusiasmo e no envolvimento dos professores e da sociedade em geral. Delapidou-se muito do capital de esperança que existiu, de forma em geral muito estúpida, ou seja, por razões menores. Hoje, quando temos de proceder a alterações profundas no modelo escolar, porque o mundo mudou muito, a cultura e a economia também e as crianças e os jovens chegam hoje à escola muito diferentes, estamos sem exército (ou com um exército em grande medida composto por soldados desmobilizados). Além disso, o mundo que os espera vai ser muito, muito diferente e isso constitui um desafio gigantesco para nós, que vivemos este tempo de transição cultural.


Lançou o projeto Arco Maior em 2013. De que se trata?
Uma dinâmica socioeducativa que acolhe adolescentes e jovens que já abandonaram as escolas, que delas vão sendo expulsos lentamente e acabando por desistir. A maioria está dentro da escolaridade obrigatória, mas não há para eles uma morada nas escolas públicas, embora haja lá um papel para poderem estar matriculados. Cínica hipocrisia! São muitos, no Porto e em Gaia, onde estamos por agora, em três polos e em três casas, ligados sempre a um Agrupamento Escolar. Com os jovens realizamos um trabalho muito intenso, verdadeiro e baseado numa grande capacidade de ir ao encontro de cada uma e de cada um, convocando-os, uma e outra e outra vezes, sem limite, até serem capazes de edificar um novo projeto para a sua vida. Temos aprendido muito! A amar, sobretudo.




Em 2001 num dos seus livros “Avenidas da Liberdade. Reflexões sobre a política educativa” referiu que “não há escolas capazes de substituir famílias”. Porquê?
Porque a principal e mais completa educação é a que a família pode dar. Prescindir das famílias ou torná-las descartáveis, como muitos hoje fazem, é muito grave e vai pagar-se muito caro (já se paga!). Não há escolas (nem outras instituições) com textura humana e relacional capazes de alguma vez substituir a família. Hoje, o que deveria haver era uma nova aliança entre educadores, pais e professores, tendo em vista darem as mãos em prol de mais e melhor educação. Temos muito caminho a percorrer.


Entre várias distinções que já recebeu, em 2009 foi distinguido pelo Presidente da República como Grande Oficial da Instrução Pública. Foi um momento especial?
Nada de muito especial. Fico grato porque trabalhei arduamente em prol da educação pública, mas só fiz o que tinha de ser feito.

O matemático Alfred Rényi referia que “quando estou infeliz faço matemática para me fazer feliz. Quando estou feliz faço matemática para me manter feliz”. O que o faz feliz?
Amar e dar-me, sobretudo a quem mais precisa de mim.


Carlos Marinho