Intersecções por Daniela Gonçalves
Clube de Matemática SPM - Outubro de 2017
Publicado a 08 de Outubro de 2017

               






"Intersecções" é uma rubrica onde se apresentará o resultado de cruzamento(s) de vários assuntos ou de várias ideias, a partir das Ciências de Educação. O conjunto que resultará desta operação será um produto com uma leitura amplificada, integrada e sustentada pelo(s) argumento(s). 


 Daniela Gonçalves - Professora do Ensino Superior




Intersecções por Daniela Gonçalves - Saber Pensar e Fazer Saber Pensar                   
Clube de Matemática SPM - Outubro de 2017                   
                    
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Título: Saber Pensar e Fazer Saber Pensar


Esta agenda educativa global marcada pela ideologia da qualidade e da eficácia do sistema educativo é bem acolhida pela sociedade. A noção de competência, por exemplo, entra na linguagem das escolas por via do mundo empresarial: não basta saber os "saberes", é preciso mobilizá-los em contextos sempre renovados. Os novos princípios defendem a necessidade de se promover a articulação entre a escolarização, o emprego, a produtividade, o mercado, no pressuposto de que daí resultará o equilíbrio do défice e o aumento do PIB. Solicita-se ao sistema que racionalize e otimize os seus investimentos e recursos e recomenda-se uma gestão escolar baseada em critérios de eficiência e de competitividade.

A retórica que defende a organização de um mercado escolar instituído com base nas preferências dos "consumidores" é exatamente a mesma que transfere para o terreno educativo a moderna fraseologia empresarial: metas educativas, sustentabilidade, gestão global, standard superior, hard skills (pensamento estratégico, planeamento e controlo, accountability, gestão de projetos, inovação), soft skills (gestão e motivação de equipas, gestão de conflitos, comunicação interna e externa, gestão de parcerias), mecânicas de proximidade, práticas de benchmarking... 

A qualidade e a excelência assumem-se, deste modo, como novos paradigmas de uma escola que se abre aos seus "clientes futuros": as universidades e as empresas. Nesta lógica, a escola com qualidade é aquela que promove o progresso de todos os alunos em todos os aspetos do seu rendimento e aproveitamento, para além do que se podia esperar, dada a sua situação inicial e o seu aproveitamento anterior, assegurando que cada aluno consegue o maior sucesso possível e continua a melhorar de ano para ano. Uma escola assim remete para o princípio da equidade: uma escola só é eficaz se o for para todos os alunos e para cada um(a). Está associada à noção de valor acrescentado, o indicador utilizado para medir a eficácia da escola; não é o rendimento máximo da escola mas sim o avanço relativamente às suas potencialidades. O sistema educativo continuará a ter de promover o talento e o mérito mas, paralelamente, não poderá deixar de promover o sucesso "mínimo" de modo a que todos possuam a escolaridade obrigatória. Algures do meio de isto tudo destacamos uma intersecção essencial: não esqueçamos que a escola deve promover essencialmente o saber pensar, o saber perguntar e encontrar vias de concretizar aprendizagens sustentáveis. 

Trata-se do pensamento crítico: esse tipo de pensamento que às vezes se perde no meio de tantos estrangeirismos e/ou modernismos.