Quadrantes por Francisco Fernandes
Clube de Matemática SPM - Outubro de 2017
Publicado a 28 de Outubro de 2017

 



Este espaço pretende narrar “estórias” de personagens históricas, “estórias” que vão além do plano formado pelos eixos espaço e tempo, localizados em quadrantes diferentes da historiografia tradicional, permitindo aos seus leitores, um aprofundamento da compreensão e humanização de diversos episódios da história da humanidade. 

Francisco Fernandes - Arqueólogo e Professor de História 


Dia 28 de cada mês

                 


Quadrantes por Francisco Fernandes - Acha que conhece a face do Infante D. Henrique?

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Título: Acha que conhece a face do Infante D. Henrique?




Durante a nossa vida escolar, ao estudarmos a expansão marítima portuguesa do século XV, é nos apresentada a imagem da personagem histórica que ocupa um papel central nesta epopeia portuguesa apelidada de “Descobrimentos”, o infante D. Henrique.

Lembramo-nos logo daquela figura de bigode, chapéu e vestes largas pretas, também ela imortalizada no Padrão dos Descobrimentos, obra do arquiteto Cottineli Telmo e do escultor Leopoldo de Almeida, erguida em 1940 para a Exposição do Mundo Português em Lisboa.

Esta imagem do infante D. Henrique é retirada daquela que é a joia do Museu Nacional de Arte Antiga, o painel de S. Vicente de Fora, uma obra composta por 6 painéis de madeira pintados a óleo, provavelmente em 1455, da autoria do pintor português Nuno Gonçalves.

A descoberta do painel é ela própria uma “estória” deliciosa, pois terá sido descoberto em 1882, no mosteiro de S. Vicente de Fora em Lisboa, onde servia de tábuas de andaimes, mas a “estória” de hoje prende-se com a identificação das personagens retratadas no painel, painel esse dado a conhecer em 1910.

O tema central destas pinturas é ainda hoje motivo de discussão, mas todos os historiadores são consensuais ao dizer que nelas estão retratadas figuras proeminentes da corte portuguesa de meados do século XV,  com elementos sociais da nobreza, clero e povo, os herdeiros do rei D. João I, o mestre de Avis, podendo nela identificar-se os seus filhos, D. Duarte e o seu filho D. Afonso V, ambos viriam a ser reis, o infante D. Pedro e o nosso infante D. Henrique.

Observando as seis pinturas, sem dúvida que a figura mais enigmática é aquela representada num dos painéis centrais, com um chapeirão preto, com vestes pretas, bigode e uma face melancólica, destacando-se de todas as outras.

Logo os historiadores, apoiados numa iluminura da Crónica dos feitos da Guiné, escrita pelo cronista Gomes Eanes de Zurara, sucessor de Fernão Lopes, encontrada num Códice existente na Biblioteca Nacional de Paris, identificaram essa figura como o infante D. Henrique, o grande impulsionador do período mais esplendoroso da história portuguesa, visando a glorificação do infante como um herói e quase santo, ideia que durante o Estado Novo em Portugal vingou profusamente, 

Contudo, analisando essa mesma iluminura constatamos que a mesma não é mais do que uma simetria da pintura do painel de S. Vicente, num efeito de espelho, colocando assim de lado a ideia de esta ser uma imagem original. E, continuando a análise e interpretação do texto dessa crónica de Zurara, verificamos que o mesmo faz a descrição do própria infante D. Henrique, dizendo que os seus cabelos possuíam uma cor branca, afastando-o assim da imagem do painel de S. Vicente. Se juntarmos a este por maior o facto de o infante ser governador da Ordem de Cristo, cujo símbolo é uma cruz branca bordeada a vermelho, encontramos uma personagem retratada nos painéis que corresponde ao infante D. Henrique, usando vestes roxas, com cabelo branco e à maneira própria de um membro de uma ordem religiosa-militar, envergando ao peito uma cruz símbolo dessa ordem. A análise do próprio jacente presente no túmulo do infante D. Henrique confirma a identidade do mesmo, pois a sua compleição é similar à figura dos painéis de S. Vicente.

Quem será então este homem misterioso de vestes e chapéu preto, usando um bigode? 

 


Trata-se não mais do que o irmão de D. Henrique, D. Duarte, rei de Portugal, pai do infante D. Afonso V, que se encontra retratado de joelhos no mesmo painel, num painel onde ainda encontramos a mulher de D. Duarte e mãe de D. Afonso V, Dona Leonor de Aragão.

A crónica de D. Duarte de Ri de Pina, do século XV,  bem outras fontes documentais, que descrevem D. Duarte confirmam o uso do bigode. O ar amável e melancólico e o chapéu borgonhês são também características fundamentais de um rei D. Duarte, homem culto, que escreveu livros, que viajou e conhecia a Europa e, mesmo morrendo jovem, ficou apelidado de o “Eloquente”.

Esta é mais uma “estória” da nossa historiografia que nos levam a duvidar de simetrias figurativas que quando confrontadas com as fontes documentais escritas, configuram-se como assimetrias.