Quadrantes por Francisco Fernandes
Clube de Matemática SPM - Novembro de 2017
Publicado a 28 de Novembro de 2017

 



Este espaço pretende narrar “estórias” de personagens históricas, “estórias” que vão além do plano formado pelos eixos espaço e tempo, localizados em quadrantes diferentes da historiografia tradicional, permitindo aos seus leitores, um aprofundamento da compreensão e humanização de diversos episódios da história da humanidade.  

Francisco Fernandes - Arqueólogo e Professor de História 


Dia 28 de cada mês

                 


Quadrantes por Francisco Fernandes - O Convento e o Palácio de Mafra...

Clube de Matemática SPM - Novembro de 2017

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Título: O convento e palácio de Mafra. Promessa de um filho ou haverá outra razão?




Este ano celebram-se os 300 anos do início da construção do convento/palácio de Mafra, a maior joia do barroco português. 

A primeira pedra foi lançada a 17 de novembro de 1717, dando início à construção de uma das mais grandiosas construções arquitectónicas do país, , ocupando uma área de perto de 4 hectares, com 1200 divisões, mais de 4700 portas e janelas, 156 escadarias e 29 pátios e saguões, estando classificado como Monumento Nacional desde 1910.

Este monumento português é mesmo aquele que melhor espelha o conceito de Obra de Arte Total, combinando a arquitetura com a escultura, pintura, música, livros, têxteis, entre outras artes.

Projeto do alemão Johann Friedrich Ludwig, por esta obra passaram mais de 55 mil trabalhadores, tendo as obras durado 30 anos, desde a primeira igreja e área conventual, até ao palácio que iria albergar a corte portuguesa, numa ostentação de riqueza e poder do rei, pensamento dentro da corrente absolutista em voga na Europa.

Além da ostentação da riqueza e poder, que outros motivos estiveram na decisão de D. João V para mandar erguer a cerca de 30 quilómetros de Lisboa, tão notável e grandiosa construção?

A ideia mais divulgada é a de que D. João teria mandado construir o convento em cumprimento de uma promessa. Se  a rainha Dona Maria Ana de Áustria lhe desse um filho, ele iria construir um convento dedicado a Santo António.

O próprio José Saramago no seu romance “Memorial do Convento”, coloca D. João V a efetuar esta promessa “Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia que estamos,,,”.

Contudo, olhando para a cronologia das datas marcantes de D. João V, esta ideia da promessa de um filho parece cair por terra. O casamento entre D. João V e D. Maria da Áustria foi acordado em 1707, tendo a armada que conduzia a rainha entrado na barra de Lisboa a 26 de outubro de 1708, iniciando-se assim as festas do casamento real. A primeira filha do casal rela foi a infanta D. Maria Bárbara, nascida em 1711, e o primeiro filho varão, infante D. Pedro logo no ano seguinte, 1712, O próprio futuro rei, D. José, 3º filho do casal real nasceu em 1714, ano da morte do infante D. Pedro. Este hiato temporal entre o nascimento dos filhos e o início da construção do convento mostram bem que a promessa feita pela nascimento de um filho não parece plausível.

A ideia  mais verosímil é de facto a construção se ter iniciado como forma de pagamento de uma promessa, mas esta feita em troca do restabelecimento do rei.
Existem relatos históricos que falam do recolhimento do rei em 1716 em Vila Viçosa por motivos de “doença de cariz melancólico”. Efetivamente, um jornal denominado o Gazeteiro de Lisboa noticiou que em 1716, que após ter assistido às festas do Santíssimo Sacramento na igreja da Nossa Senhora da Graça, o rei se “achou tão doente que foi preciso aplicar-lhe o método das sanguessugas e alguns outros”- 

Que doença de cariz melancólico seria essa? Más línguas garantem que estaria relacionada com o modo de vida do rei e uma falha de cariz sexual na performance do rei que ficou conhecido pelas suas relações extraconjugais, sobretudo com freiras, sendo a mais conhecida a Madre Paula, história de amor recentemente ficcionada numa série na RTP.

Destas relações nasceram mesmo vários filhos bastardos e o apetite sexual do rei era bastante famoso e motivo de orgulho por parte do mesmo, sempre frequente o uso de vários afrodisíacos trazidos pelos melhores boticários.




Assim, um rei que sempre fora saudável, aos 27 anos sofrer um episódio de impotência, deve-o ter abalado de tal forma que a obrigação de cumprir a promessa levou-o à construção do convento em Mafra, projeto que depois foi crescendo á medida que o ouro do Brasil ia chegando a Portugal e as falhas sexuais do rei terem sido totalmente superadas.