Poemática por Nuno Guimarães
Publicado a 15 de Setembro de 2011


 


E a matemática pediu namoro à poesia, mostrando-lhe todas as suas qualidades que passavam por sinais aritméticos de riqueza, campos cheios de raízes quadradas e um coração infinito, onde cabiam todos os números perfeitos, como convém a quem se quer apaixonar. Ela, a poesia, achou-lhe graça. Encontrou-lhe alguma métrica e deixou-se deslizar em hipérboles que sendo linguísticas a levaram a exageros que nem o teorema de Pitágoras conseguira resolver. As incógnitas desta relação eram muitas, atendendo às suas personalidades ímpares, com números primos à mistura. Foram vivendo numa matriz de entendimento construída por rimas pouco lógicas e amores em fracções de denominador comum que sustentavam médias de paixão numa POEMÁTICA difícil de teorizar…

Nuno Guimarães - ex-engenheiro, leitor de Português nas Universidades de Vilnius e de Vytautas Magnus (Kaunas), com manias de poeta…


Título: As contas todas


Fizeram-se as contas todas! Multiplicaram-se amores,

 somaram-se as flores sobrantes da primavera e

 queimaram-se folhagens, bastantes, dos outonos

delirantes que enganavam invernos adormecidos,

quase perdidos, a contar os longos meses de

 Dezembro. Depois, afagou-se o coração, para apagar

 os frios, com café cheio de beijos mascavados, doces

 pecados, resultados de complicadas operações de

 divisão. Subtraíram-se suavemente as nuvens que

escondiam a lua com cortinas grandes, densas,

tricotadas em algodão, e assim, a operação, ficou

 completamente clara, iluminada, certa, perfeita, isenta

 de prova real, com céu limpo a confirmar o resultado

 final. Fizeram-se as contas todas, naquela escola. Ao

 fim do dia, a poesia meteu os lápis e cadernos na

sacola e saiu. Nunca mais ninguém a viu. Consta que

 por ousadia, foi estudar algoritmia,no Egipto, na

 universidade de Alexandria…