Entrevistado do mês de Dezembro -D. Manuel Martins ex-Bispo de Setúbal
Publicado a 26 de Novembro de 2011

Entrevista a D. Manuel Martins -  Ex-Bispo de Setúbal 

     

D. Manuel Martins nasceu em Leça do Balio – Matosinhos há 84 anos, foi Bispo de Setúbal durante 23 anos numa época muito difícil tornando-se uma figura incontornável do passado, do presente e do futuro do nosso país. A arte de saber dividir e o desejo de multiplicar processos que promovem o bem, subtraindo graves problemas sociais e humanos, adicionam certamente uma luz ao fundo do túnel que permitem vislumbrar a esperança de uma vida melhor, apesar do modus vivendi se ter transformado num sistema encruzilhado, uma incógnita em termos de futuro. Frontal, directo e sem papas na língua, D. Manuel Martins fala de tudo, raciocina sobre os problemas, aponta boas soluções, faz contas à vida e, imagine-se fala até de matemática.


D. Manuel Martins nasceu em Leça do Balio e contínua na sua terra natal…

Continuo na terra onde nasci depois de anos de ausência por factores externos. No decorrer da minha vida conheci outros complementos circunstanciais de lugar. Já não falo dos seminários onde estudei, onde dei aulas, mas falo por exemplo, de Roma onde estudei e, também de uma forma especial de Setúbal onde fui Bispo durante 23 anos. Regressei à minha terra, á casa onde nasci, uma casa humilde. Esta casa foi construída pelos meus pais, aqui nasceram quase todos os meus irmãos.


O que mudou nestes anos a sua terra natal?

É uma reconstituição que tenho feito com muito prazer. Basta ir à Maia e percebemos que essa terra já não mora lá. Leça do Balio ainda mora aqui. Embora com algumas modificações, de reformas de casas, abertura de novas ruas, apartamentos novos que se construíram por aí, uma ou outra urbanização, apesar de tudo costumo dizer, que se tivesse morrido á 200 anos e, caísse aqui de helicóptero eu não ficava desorientado porque a minha terra ainda mora aqui.


E ao nível dos valores?

Com a minha terra acontece com outras terras. Quando se fala de valores, podemos falar na aquisição ou abertura para novos valores. A vida é uma evolução, vamos avançando, progredindo. Nos direitos que fazem parte da constituição de países civilizados e, até da declaração universal dos direitos do homem, temos direitos que consideramos indiscutíveis e evidentes. Sabemos que há muitos séculos atrás, alguns destes direitos eram considerados como abusos, como acontecimentos de perturbação, como sinais de desordem e desentendimento entre as pessoas. Penso que se refere mais aos valores da verdade, da justiça, na partilha, na amizade, da fraternidade, da solidariedade, da vizinhança. Nos meus tempos de criança, a vizinhança incluía todos estes valores. Com a mudança radical que se deu na vida, as pessoas andam a girar por todos os lados. Não estão em casa. Para que haja boa vizinhança é necessário que as pessoas estejam em casa, na rua, se possam encontrar e falar. Esta vida agitada faz com a pessoa não saiba onde está. Nas cidades e periferias das grandes cidades, a invasão vinda de fora quebrou muito o ritmo da vizinhança. Nos prédios as pessoas não se conhecem. A pessoa que mora no rés-do-chão não conhece a do 1º andar e, por aí adiante. Mesmo assim, ainda existem um conjunto de pessoas na minha terra que me permite dizer que muito do que havia nos meus tempos de rapaz ainda existe.


Que tipo de influências teve para abraçar a vida da Igreja?

Nunca sabemos ao certo quando de dá um passo determinante o que esteve na base da decisão. No meu caso foi diferente, há um acontecimento marcante, em que posso situar a minha vontade de querer ser padre. Não foi a partir da minha paróquia uma vez que ela era muito descristianizada que tive o desejo de ser padre. Lembro-me do novo padre ter dito que estavam 14 pessoas com ele no Mosteiro em 1936, já a contar com um irmão que veio com ele de bicicleta do Castelo da Maia. Não havia uma comunidade que pudesse gerar vocações. Tal como hoje, temos comunidades pouco conscientes, muito frias, pouco activas, paradas. Igualmente, também não foi da minha família. Tal como o resto da comunidade também era muito descristianizada. Foi este pároco novo que apesar de toda a frieza que havia provocou uma autêntica revolta na paróquia. E, eu pequenito com 11 anos, não me saía da cabeça aquele padre tão feliz. Ele morreu há pouco tempo, com mais de 90 anos. Foi sempre um homem de muita iniciativa, muito inteligente, muito culto. Um dia fui ter com ele e disse-lhe: “Sr. Padre, eu quero ser como você!” Naquele tempo a palavra você era mal vista, os pais ralhavam-nos. Hoje os filhos tratam os pais por tu e, os pais tratam os filhos por você. Ele orientou-me para o seminário. Ele sim foi a minha grande influência.


Alguma vez se arrependeu de ter optado por este caminho?

Nunca. É engraçado. Ás vezes temos momentos em que fazem perguntas, sobretudo quando se é mais jovem. A nossa vida no seminário antigamente era feita por longos períodos de ausência de casa., Íamos em Outubro e vínhamos só pelo Natal ter férias quinzenais com a família. Tínhamos também o nosso passeio em grupo à semana e, aos domingos. Imagine o seminário do Porto que estava todo voltado para a vida, para o mundo. Parece que está enterrado, mas está numa encosta. Dava-nos o mundo da Ribeira, de Gaia, da ponte, do rio, dos desportos, de muitas outras coisas. Quantas vezes éramos batidos por estas perguntas, “porquê aqui e, não ali?” Ficavam muitas ideias penduradas, mas essas perguntas que iam misturadas com um bocadinho de saudade daquilo que se deixou, daquilo que poderia ter, contudo em mim nunca deram em dúvida. Havia uma alegria imensa da chegada ao altar. Nós contávamos os dias por causa desse dia.


Quando mais jovem gostava de matemática?

Gostava de matemática. Pelo menos não desgostava de matemática. O seminário era mais virado para as letras. Recordo-me que alguns rapazes da minha idade que mais tarde vieram a ser médicos, engenheiros entre outras profissões afins, e os pais destes rapazes procuravam-me para dar explicações aos filhos. Dava explicações de português, francês, inglês…


E de matemática?

Não me recordo. Se calhar até dei. Aquela matemática fundamental, desde a álgebra e a trigonometria, essas coisas todas, nós estudamos isso tudo e. tivemos a sorte de ter professores de matemática que me marcaram.


Lembra-se de um momento ou pessoas que se lembre que o tenha marcado uma aula de matemática?

Os professores da altura. Explicavam muito bem, eram pacientes, muito entusiasmantes. Dava-nos problemas interessantes de realidades tão perto de nós. Por exemplo, um moinho que tínhamos lá perto na quinta do seminário, calculávamos a quantidade de água, o volume de água que era preciso para que a roldana se movesse ou para se obterem quantos quilos ou arrobas de farinha. Tínhamos nas ciências geográficas um professor que nos davam problemas fantásticos de astronomia e era objecto das nossas melhores conversas no recreio.


Como vê a escola de hoje?

É um problema muito complexo onde não podemos culpar ninguém. Não sei se é um retrato da sociedade. Tenho feito muitas reflexões sobre isto. Numa palestra, eu dizia que se deve manter uma disciplina de interesse que se fundamente pelo respeito pelo professor, uma escola não pode prescindir do respeito dos alunos pelo professor. E, o respeito não é um sentimento, uma atitude ou um comportamento que o professor quer, é uma atitude ou um comportamento que o professor merece. É uma relação de descoberta. Que não é imposta. O ensino é uma provocação no bom sentido. Não é um despejar de conhecimentos para a cabeça de quem for. O professor não é a pessoa que despeja conhecimentos, é o homem que provoca o conhecimento.


Uma frase atribuída a Santo Agostinho é “sem a matemática não nos seria possível  compreender muitas passagens das Sagradas Escrituras”. Como comenta?

Nunca ouvi falar dessa frase. Santo Agostinho foi um grande mestre da antiguidade, do século quinto. Lemos muitas coisas de Santo Agostinho na chamada Liturgia das Orges. Conto às vezes esta história: quando fui fazer uma conferência a Vila de Conde, a certa altura disse que Santo Agostinho, no século quinto, tinha dito que devíamos desconfiar sempre de um indivíduo muito rico porque para ele ou era ladrão ou filho de ladrão. No jornal no dia seguinte atribuíam-me a frase a mim “os ricos ou são ladrões ou filhos de ladrões”. Noutra entrevista que dei referi que o Papa deu indicações aos bispos, padres e às comunidades religiosas em relação à pobreza que se instalou, que vendessem o ouro que não tivesse valor histórico ou casas/quintas degradadas e, que resolvêssemos problemas pontuais para ajudar os pobres. Então o jornal dizia que eu disse que a Igreja devia vender o ouro. Era bom que fosse da minha cabeça. Até podia nascer mas foi o Papa. Mas em relação a essa frase de tudo o que li de Santo Agostinho desconhecia essa frase.


A melhor operação que gosta de fazer de fazer na matemática é dividir…

Às vezes para dividir tenho de somar e multiplicar. Tenho essa sensibilidade, não é mérito nenhum acudir a situações de miséria e pobreza. Este sentimento já se verificou em Cedofeita quando criámos bases sólidas para acudir aos mais desprotegidos. Disseram-me que o Santo Padre me tinha escolhido para Setúbal por causa da acção social que estávamos a realizar em Cedofeita.


A situação actual compara-se com a que viveu em Setúbal enquanto Bispo?

Cheguei a Setúbal num momento de dificuldades extremas. Para já, parece-me que não tem nada a ver com as situações actuais. Na altura era muito pior. Deus deu-me esta sensibilidade, esta descoberta de poder ajudar aquela gente. Sempre me senti Bispo quer na Catedral numa cerimónia importante, ou numa manifestação ou num grupo de pessoas que estariam a ser despejadas. Procurei sempre corresponder. As pessoas entregam-me dinheiro para dar a quem precisa. Foi um dom que Deus me deu e eu procuro corresponder.


Acha que em Portugal, alguma personalidade que precise muito de se confessar?

Com certeza que haverá muita gente que precisa. Essa conta nós podemos entendê-la assim, e questionar: será que houve quem nos levou a esta situação? A nossa gente até por falta de reflexão e por toda a manipulação a que é sujeita acha que quem está no poder agora é que tem culpa de tudo do que se passa no país. Nós estamos nesta situação por causa dos pecados dos grandes seguidores da filosofia económica neo-liberal, desses detentores do poder político. Estou convencido que nós estamos nesta situação porque nos enterrámos nesta situação. Vejamos por exemplo, as escolas. Quantos directores de escola tenho ouvido sobre o abuso praticado à nossa pobreza e, até ao nosso direito de termos uma coisa suficiente. Por exemplo, nos agrupamentos escolares que estão a ser contruídos são do melhor que há, do mais caro que há, com mármores do melhor, com ar condicionado. Isto pode–se fazer com dinheiro mas quando não há não de pode fazer. Empurraram-nos para uma situação, para um poço onde não temos corda para nos tirar do fundo. Agora vou provavelmente dizer uma asneira, talvez por ignorância minha, e que tem a ver com a meia hora que querem implementar aos trabalhadores, colocando-os a trabalhar mais tempo com o mesmo ordenado. Eu pergunto: para quê, se não há trabalho?


Fala-se em mexer em feriados religiosos para aumentar a competitividade do país. Acha que esta matemática está correcta? Qual é o papel da Igreja nesta matéria?

Não há motivação nenhuma. Se fosse preciso durante 1, 2, 3, …10 anos darmos as mãos para recuperar o país, devíamos fazê-lo já hoje. Mas parece que não é por aqui. A supressão dos feriados quando eles têm significado pedagógico, histórico, cultural, eu acho que é uma desumanização, da identidade da pessoa. Vejamos o dia 1 de Novembro, todo o mundo se movimenta. Esta ligação com o passado que nos faz, que nos fez, que nos explica, que nos abre caminhos, a sua supressão só nos pode empobrecer. Outro, o corpo de Deus é uma festa fantástica, é uma oportunidade para as pessoas se encontrarem. Outro exemplo, o dia das 7 senhoras, dia 15 de Agosto, é o dia em que nos nossos Santuários se enchem de pessoas de todo o lado. Não há capelinha que não faça a sua festa. Tudo isto que se faz com as pessoas, deve ser conservado. Conhece a história da sopa de pedra? Sabe, havia um frade cheio de fome numa terra onde não lhe davam de comer. Arranjou uma habilidade para poder fazer uma sopa de pedra. O lavrador mais curioso que solidário mandou-o entrar. Lá lhe deu a panela, a batata, a couve, o chouriço, no fim depois de ter saciado a fome e comido a sopa, lá deitou a pedra fora. O lavrador ficou muito espantado percebeu logo no logro que tinha caído. Bom, eu sobre esta supressão dos feriados nacionais, admito que haja um ou outro que não faça história por serem ocasionais, mas tirar feriados que tenham a ver com a cultura e o nosso passado, faz-me lembrar a sopa de pedra. Vão-nos tirando a roupa e ficamos só com o esqueleto. Ficamos só com a pedra. É uma desumanização. A humanidade vai-se desenvolvendo num plano inclinado de desumanização. Em contacto hoje com o meu dentista, ele dizia-me que hoje não há possibilidade do médico se humanizar com o seu paciente. O computador resolve tudo.


“A Matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo”. Esta frase pertence a Pitágoras. Quer comentar?

É curioso, voltando de novo ao meu dentista e, sem usar a palavra matemática discutíamos sobre a vida e o seu significado. Aquele que fez tudo isto deve ter tido uma arquitectura matemática em que transformou tudo isto nesta fórmula fantástica que é o nosso mundo.