Bits&Bytes por Alexandre Trocado - Transição digital e exames de Matemática no computador

Eixos de Opinião de Maio de 2021

Alexandre Trocado - Professor de Matemática (Ver +)


Título: Transição digital e exames de Matemática no computador

Após a publicação do artigo de Abril houve espaço para mais uma abordagem pelo Ministério da Educação da transição digital. Em concreto ficámos a saber que os Exames Nacionais serão feitos em computador até 2025. Para o dia a dia das escolas trata-se de uma informação muito relevante e com bastante influência na dinâmica das aulas. A influência que a avaliação tem sobre o funcionamento da escola é muitas vezes superior à influência de orientações metodológicas dos programas das disciplinas.

Mas o que significa para a Matemática os Exames serem realizados em computador? 

Em 2016 o IAVE avançou com um projeto-piloto para a criação de provas de Matemática e Português realizadas no computador. Quanto à prova de Matemática, a opção escolhida não poderia ser sido pior, os alunos do 4.º e 6.º anos eram obrigados a escrever expressões matemáticas em linha, por exemplo,

 

seria introduzida como

x^2+2x+1/3.

Actualmente já existem soluções que permitem suprimir estas dificuldades sendo possível o próprio software interpretar e ir construindo a expressão à medida que o utilizador a introduz, por exemplo, “^” para potência e “/“ para a fração. No entanto, apesar desta pequena ajuda fará algum sentido os alunos serem obrigados à lentidão deste tipo de escrita? A melhor resposta poderá ser que depende do que é exigido. Se for para repetir as resoluções actuais em papel de certeza que será demasiado exigente para o aluno.

Em julho de 2019 esta questão já tinha sido abordada e pudemos observar que na Finlândia alunos podem recorrer a vários tipos de software, incluindo CAS (Calculador Algébrico Simbólico). Na altura divulguei o video seguinte onde se pode verificar que o aluno apenas descreve os passos da sua resolução do exercício, deixando para o computador os cálculos rotineiros. 

Com este tipo de avaliação o impacto do computador é mínimo e é possível extrair todas as suas potencialidades, deixando o trabalho essencial para o aluno que é a interpretação e resolução do problema.

Uma outra opção extremamente redutora poderá ir no sentido de tornar os Exames Nacionais de Matemática formados apenas por escolhas múltiplas. Seguindo esta opção, os computadores apenas servirão como ferramenta facilitadora tornando mais ágil a realização e a classificação dos exames e esta opção será de certeza um retrocesso no ensino da Matemática, dado que sabemos da influência que os exames têm nas práticas do dia a dia e não seria de estranhar se grande parte dos professores por esse país fora passassem a realizar testes de avaliação integralmente formados por escolhas múltiplas. Como se de um momento para o outro as escolas se tornassem em algo parecido a uma escola de condução desperdiçando uma oportunidade de avançar um patamar no ensino da Matemática.

Com a entrada de um novo programa da Matemática, o qual se prevê que dê bastante ênfase ao Pensamento Computacional, e alteração dos Exames Nacionais de Matemática para a integração de uma grande diversidade de ferramentas poderiam levar a uma verdadeira revolução no ensino da Matemática em Portugal contribuindo para que a escola cumpra com o seu papel de preparação das gerações mais novas para a sociedade actual, do século XXI. 

Só nos resta aguardar pelas novidades dos próximos tempos e esperar que as notícias sejam boas.

Publicado/editado: 31/05/2021