Intersecções por Daniela Gonçalves - Identidade(s) ou identidade compósita e plural

Eixos de Opinião de Julho de 2019

Daniela Gonçalves - Professora do Ensino Superior (Ver +)


Título: Identidade(s) ou identidade compósita e plural

Nós não vemos as coisas como elas são.
Vemos as coisas como nós somos.

Anais Nin

Sabemos que a cultura é um processo dinâmico associado às próprias condições de vida das pessoas que, como tal, incide na vida destas e vice-versa. Ao conceito de cultura poderíamos aplicar o princípio físico da energia: não se cria nem se destrói, apenas se transforma. E transforma-se pelas opções que se tomam num dado momento e pelas interacções, inevitáveis, com outras culturas. Daqui pode resultar o carácter mestiço das culturas. Na realidade, uma cultura é a soma de todas as influências exteriores que recebeu. Tentar procurar uma raiz única, uma essência única e autêntica, conduz não só à ruína desta cultura, mas também aos piores excessos que a história demonstrou. Ora, todos os seres humanos, todas as culturas, participam inexoravelmente de outras culturas, inclusivamente com relações de conflito e domínio. Nesta lógica, o ser humano é fundamentalmente “mestiço”. 

Deste modo, é possível compreender o carácter mutável e evolutivo do conceito de identidade, dado que não a adquirimos de repente e para sempre, mas vamo-la construindo e transformando ao longo de toda a nossa existência. Por outras palavras, a identidade não é um dado rígido e imutável, mas antes fluída - um processo sempre em movimento, no qual continuamente nos afastamos das próprias origens. Assim, só uma identidade morta é uma identidade fixa. As culturas perecem no isolamento e prosperam na comunicação. Por isso, o direito à diferença cultural diante da dos outros - que nem existiu nem existe - nem deve tentar evitar estes fenómenos de globalização, porque contribuem de forma espontânea para a mudança e a diversificação que são inerentes às culturas vivas, de maneira tão natural como é o facto de terem uma especificidade própria. Entrar em contacto com outros não implica, necessariamente, perder a identidade nem renunciar àquilo que nos é próprio, mas é motivo para revermos a visão que temos do que é nosso. 

Concordamos com João Maria André quando considera que “os outros mundos são afinal os nossos mundos...” e o caminho para o diálogo passa pelo entendimento desta identidade compósita e plural. 

Certamente que os professores devem investir (também) em momentos de diálogo, de negociação, de reflexão e de arbitragem de projetos e iniciativas.

Este tempo de paragem que está a chegar poderá ser entendido como uma excelente oportunidade para refletir como nós somos e que realidade pretendemos (re)desenhar de forma independente e interdependente. Afinal, o que somos é fruto de uma identidade compósita e plural. 

Publicado/editado: 09/07/2019