Entrevista a Duarte Valente - Jornalista e Editor da RTP
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Publicado a 01 de Novembro de 2014

Entrevista a Duarte Valente  - Jornalista e editor da rtp

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Entrevista a Duarte Valente  - Jornalista e Editor da RTP



Duarte Valente, jornalista e editor do jornal da tarde da rtp é o convidado do clube spm de novembro. Noticias sobre a infância, relembrando a saudosa Rádio Atlântico onde iniciou a sua carreira de jornalista, destaque para a guerra do golfo no início da década de 90 onde esteve presente, a Rádio Nova, a TVI e a claro, o jornal da tarde da rtp, são temas secantes duma conversa onde a matemática é o furo jornalístico, ou não estivéssemos a falar com um dos melhores jornalistas portugueses. Esta é a geometria de uma entrevista que vai até si nesta fatorização:


Noticiar a tua infância seria...
Difícil, porque não se enquadra nos parâmetros noticiosos do jornalismo atual. Não teve drama, nem tragédia, nem horror (risos)! Às vezes até tenho alguma dificuldade em explicar à minha filha adolescente como me foi fácil “sobreviver” sem computador, nem internet, a ver desenhos animados na televisão e a jogar futebol na rua. Tenho boas recordações de infância mas que, como digo, dificilmente dariam notícia.

A Matemática em criança/jovem vias em que canal?
(Risos) No único que havia na altura! Por acaso, tenho memória de assistir a umas aulas de matemática via telescola (sim, eu sou do tempo da telescola!), porque não havia mais nada para ver na TV! Mas confesso que nunca foi o meu programa favorito! Sempre tive mais queda para as letras do que para os números, por isso, mal tive a oportunidade de fugir desta ciência tão abstracta (para mim)… fugi e nunca mais voltei.

Gostas da citação de Lao Tse, “um longo caminho começa com um pequeno passo”. Na matemática também é assim. O difícil é o primeiro passo...
O problema é quando se começa com o pé errado… isso torna qualquer caminho muito mais difícil. Na verdade, adotei esta frase como lema de vida, quando fiz o Caminho de Santiago pela primeira vez, em 2005. A ideia de fazer 250 km a pé parecia meia louca à maior parte dos meus amigos mas, na verdade, o difícil é mesmo dar o primeiro passo e por pés ao caminho. Tanto é que, desde 2005, faço todos os anos um percurso superior a 100 km a pé, até Santiago de Compostela. Infelizmente, com a Matemática, comecei com o pé errado e nunca mais consegui acertar o passo até abandonar definitivamente.

  


Investir na educação e na aprendizagem da matemática dos filhos é...
Investir no futuro. Apesar de nunca ter sido uma área de estudo aprofundado para mim, tenho a clara noção de que é um domínio cada vez mais relevante na sociedade. Tudo gira em torno de números binários, bites e bytes. Até ao 10º ano de escolaridade fiz um esforço para que a minha filha entrasse nesse mundo, complementando a aprendizagem na escola com explicações de matemática para que a matéria fosse mais facilmente apreendida. Apesar desse esforço, a escolha para o 10º ano foi pelas Humanidades… deve ser um qualquer problema genético! (outros risos)

Em meados do anos 90, foste em reportagem para a guerra do Golfo com apenas 21 anos pela rádio Atlântico. Foste “Valente”...
Essa é uma característica que me acompanha desde que nasci… mas a culpa foi toda do meu pai, que me deu o nome! (mais risos) Quanto à decisão de partir para Israel quando a primeira Guerra do Golfo, eu acho que foi mais inconsciência própria de quem está com o sangue todo na guelra, do que valentia. Como grande parte dos jovens jornalistas em início de carreira, eu tinha muita vontade de ser “repórter de guerra” e a oportunidade chegou, quase caída do céu, através de um empresário israelita que se ofereceu para me pagar a viagem. Numa rádio local sem meios financeiros para se meter numa aventura dessas, o projeto foi abraçado e tive todo o apoio para o por de pé. Quando a guerra começou, os poucos jornalistas portugueses que estavam em Israel, estavam concentrados em Jerusalém e eu era o único em Telavive, onde caiu o primeiro míssil Scud iraquiano, dando início às hostilidades. Como acontece tantas vezes no jornalismo, é preciso ter a sorte de estar no sítio certo, à hora certa… dessa vez, era eu quem estava lá!   

Depois da guerra, veio a Rádio Nova...
Um projeto que fez agora 25 anos e por onde passaram nomes grandes do jornalismo nacional da atualidade. Daí que me encha de orgulho essa passagem por um projeto que foi marcante no panorama jornalístico nacional, sobretudo por ser feito a partir do Porto, fugindo ao centralismo de Lisboa, que domina o panorama mediático português. Infelizmente acabou por definhar e morrer enquanto projeto de informação pura e dura. No entanto, foi uma grande escola para mim, onde aprendi muito e onde fiz os trabalhos que mais gozo me deram, em toda a minha carreira jornalística. A Rádio Nova deu-me a oportunidade de conhecer o mundo e assistir a alguns momentos que ficaram para a História, como o fim da Jugoslávia (estive no início do conflito entre a Sérvia e a Croácia), as primeiras eleições presidenciais em Angola ou os Jogos Olímpicos de Barcelona.

Em 1993, vais para a TVI. O que guardas deste período?
Algumas amizades e uma experiência interessante porque foi o primeiro projecto em que entrei de raiz. Fiz o curso de formação inicial promovido pela TVI, convidaram-me para ficar em Lisboa e eu não aceitei, porque me sentia muito bem na rádio e no Porto (ver razões na resposta anterior). Propus ficar como colaborador, o que também não foi possível, porque a TVI não aceitava isso na altura. Quis o destino que, meia dúzia de meses depois, a Rádio Nova tenha entrado em declínio acelerado e me tenha dispensado, numa leva de despedimentos que incluiu muita gente boa na profissão. Naquela altura era relativamente fácil conseguir um outro emprego no meio, eu tinha os meus contactos com a TVI e aceitaram-me na redacção do Porto. Trabalhávamos com muito poucas condições, improvisávamos muito, mas com muito gozo porque era uma equipa pequena que fazia muita coisa.  

Volvidos 4 anos, em 97 entras na RTP até hoje. Porquê esta mudança?
Porque o projecto que me foi apresentado era muito aliciante. Iniciar emissões regionais descentralizadas a partir de vários pontos do país, com pequenas equipas multidisciplinares, capazes de dominar as várias áreas de produção noticiosa televisiva. Eu fui para Coimbra, onde já tinha vivido enquanto estudante e aí fiz de tudo aquilo que se pode fazer em TV: Produção, realização, apresentação, edição, recolha de imagem… tudo! Foi um período de muita aprendizagem, até porque toda a equipa veio de fora de Coimbra, estávamos longe das nossas famílias e, por isso mesmo, trabalhávamos muitas horas por dia. De manhã até à noite, muitas vezes 7 dias por semana. Foi interessante até ao momento em que me dei conta de que estava num meio demasiado pequeno, onde as coisas acontecem por ciclos. Em determinada altura do ano, já sabíamos que tínhamos de ir fazer a latada, ou o cortejo da Queima das Fitas, ou a matança do porco… passados alguns anos, deixa de ser um desafio para se tornar uma rotina chata e, nesta profissão, a rotina mata!  

Atualmente és editor do jornal da tarde da RTP. O Jornal da Tarde é noticia porque...
Porque é o único jornal diário da televisão generalista nacional a ser feito ininterruptamente há mais de 30 anos, fora de Lisboa. Isso dá-nos uma visão descentralizada da actualidade, mais próxima das pessoas. Não quero dizer com isto que os outros jornais todos, que são feitos a partir de Lisboa, não conseguem ver para além Almada ou da Portela de Sacavém, mas seguramente não têm a mesma visão. E também não estou a falar de uma visão meramente “nortenha” e enviesada do país e do mundo, porque acho que a partir das periferias se pode ter horizontes mais largos do que se estivermos no centro das coisas. Por outro lado, isto permite também que os protagonistas da notícia sejam diferentes. Não ouvimos sempre os mesmos políticos, os mesmos analistas. Muitas reportagens do Jornal da Tarde revelam trabalhos, pessoas e lugares que não têm espaço no Telejornal, por diversas razões.  

Existe um ramo da Matemática relativamente recente, com apenas 400 anos que é a Estatística. Como são tratadas as estatísticas pela equipa do jornal da tarde?
Nos últimos anos, este tem sido um ramo muito noticiado em Portugal pelas piores razões. São as estatísticas do défice, do desemprego, da emigração. Temos de lidar com estes dados todos os dias, trata-los e transformá-los numa linguagem perceptível a quem nos vê, o que nem sempre é fácil de descodificar entre a linguagem científica e o “politiquês” utilizado por quem lida com estes números de raíz. Aposto que quem inventou este ramo da matemática tinha melhores intenções… (ainda mais risos!)

   


A RTP é...
Uma “velha senhora” de respeito, que se esforça por acompanhar as “modernices” de um tempo imprevisível! (mais uns quantos risos) Agora a sério, a RTP é ainda hoje a maior escola de televisão do país, que tem lutado nos últimos anos contra uma série de adversidades, fruto de alguma falta de rumo da tutela política, que teima em deixar a sua marca de cada vez que muda o governo. E isto é válido para o grande “centrão” que manda na política portuguesa. Espero que a entrada em funções do novo Conselho Geral Independente, constituído por personalidades insuspeitas e academicamente conceituadas, altere este estado de coisas.  

O matemático húngaro Alfred Rényi disse que "quando estou infeliz trabalho matemática para ficar feliz. Quando estou feliz, trabalho matemática para me manter feliz". O que te faz mesmo feliz?
A vida. A capacidade de acordar em cada dia, sabendo que vamos ter de resolver problemas (alguns até matemáticos!), enfrentar o desconhecido sem saber se vai ou não ser fácil de vencer, batalhar para conseguir atingir os objectivos a que nos propusemos e chegar ao fim do dia com a sensação do dever cumprido, de que dei o meu melhor… de que dei mais um pequeno passo numa longa caminhada! E isto tudo, sabendo que amanhã é outro dia e que tudo se repete. Não é preciso estar feliz com a vida???!!! (últimos risos!!!)

                                                                                           
                                                                                              Por Carlos Marinho